Antes de trabalhar como diretor e showrunner da KondZilla, Kaique Alves imaginava outro futuro. Criado na Zona Leste de São Paulo, ele queria ser jogador de futebol e chegou a atuar nas categorias de base do Corinthians. Um acidente de trânsito interrompeu esse caminho de forma precoce e obrigou o jovem a descobrir outra possibilidade para a própria vida.
A resposta acabou aparecendo em uma câmera emprestada e no interesse por edição de vídeo.
A história de Kaique Alves é contada em um novo episódio do programa Business Rock, apresentado por SanDRÃO. O encontro revisita os primeiros passos do diretor, a entrada na KondZilla, a construção de uma carreira no audiovisual e também um período em que o sucesso profissional trouxe uma pergunta que nem sempre aparece quando se fala sobre conquistas: afinal, para que tudo isso?
Kaique Alves encontrou no audiovisual um novo caminho
Ainda na escola, Kaique começou a aprender edição de maneira autodidata. A motivação inicial era quase uma competição entre colegas, mas a habilidade logo ganhou uma finalidade prática.
Com uma câmera emprestada, passou a gravar clipes para artistas da comunidade e cobrar valores acessíveis.
“Eu comecei a aprender edição para fazer melhor que um colega que fazia os melhores PowerPoints na escola. Usei uma câmera emprestada para gravar clipes e comecei a vender para outros moleques da quebrada por preços acessíveis.”
Em 2012, um dos trabalhos ultrapassou 1 milhão de visualizações no YouTube. O número mostrou que aquela atividade poderia ser mais do que uma alternativa enquanto o futebol não acontecia.
Dois anos depois, em 2014, Kaique Alves entrou para a KondZilla como editor. Foi ali que acompanhou de perto a expansão do audiovisual ligado ao funk e começou a construir uma trajetória que posteriormente o levaria à direção e à criação de projetos para artistas e marcas de alcance global.
Quando o sucesso também trouxe perguntas
A ascensão profissional trouxe reconhecimento, estabilidade financeira e novas oportunidades. Mas foi justamente nesse período que Kaique enfrentou um dos momentos mais difíceis de sua trajetória.
A depressão apareceu quando ele estava, segundo seu próprio relato, chegando ao que considerava seu primeiro grande auge profissional e financeiro.
“Eu tive uma depressão quando realmente estava chegando no meu primeiro auge. Eu estava vivendo uma vida sem propósito.”
A experiência fez com que Kaique Alves passasse a olhar de outra maneira para a carreira que havia construído. Em vez de medir o trabalho apenas pelo resultado financeiro ou pelo reconhecimento, começou a questionar aquilo que realmente gostaria de fazer.
A resposta veio de uma pergunta simples:
“O que eu faria de graça? Esse é o meu propósito de vida. Criar e comunicar.”
A partir daí, a relação com o audiovisual ganhou outro significado.
Da quebrada para a tela
Essa mudança de perspectiva também apareceu nas histórias que Kaique escolheu contar.
Em 2023, chegou ao Paramount+ Escola de Quebrada, longa criado e dirigido por ele em parceria com Thiago Eva. A produção nasceu de uma experiência que o diretor conhecia pessoalmente: a sensação de não se enxergar nas histórias sobre escola retratadas pelo cinema.
“Eu sempre amei filmes teens, eu sempre amei filmes de escola, e nunca me senti representado dentro de um filme que falasse de escola de quebrada com detalhes.”
A trajetória de Kaique Alves também ajudou a transformar uma vivência específica em narrativa audiovisual. Em vez de tentar apagar a origem, Kaique levou para a tela elementos de uma realidade que conhecia de perto.
A trajetória profissional também o levou para fora do Brasil. Ele estudou cinema na New York Film Academy, em Los Angeles, e se tornou membro da Academia Internacional de Artes e Ciências Televisivas, ligada ao Emmy Internacional.
Uma trajetória que conversa com a realidade de outros jovens
A história de Kaique também se conecta a uma realidade maior. Um estudo lançado em maio de 2026 pela Fundação Roberto Marinho, Itaú Educação e Trabalho e IEDE, em parceria com o UNICEF, apontou que 7,9 milhões de jovens brasileiros entre 15 e 29 anos estavam fora da escola sem concluir a educação básica.
O levantamento também mostrou que sete em cada dez desses jovens são negros e identificou obstáculos relacionados à renda, acesso à internet, mobilidade, conciliação entre estudo e trabalho e inserção profissional.
No caso de Kaique, o acesso a uma câmera emprestada e o aprendizado de uma habilidade por conta própria ajudaram a criar uma porta de entrada para o mercado.
O cenário digital ampliou ainda mais essa possibilidade. Dados do IBGE apontam que 90,5% da população brasileira de 10 anos ou mais utilizou a internet em 2025, o equivalente a 168,7 milhões de pessoas.
Para uma geração que cresceu conectada, a internet deixou de ser apenas um lugar para consumir conteúdo. Também virou espaço para criar, experimentar, trabalhar e construir uma audiência.
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Para SanDRÃO, a história também passa pela periferia
A conexão entre os dois personagens do episódio vai além do programa.
SanDRÃO também cresceu no mesmo bairro que Kaique e teve no futebol uma das referências de infância. Para o apresentador, acompanhar a trajetória do diretor tem um significado pessoal.
“Eu me identifico muito com o Kaique, porque nós dois vivemos no mesmo bairro, jogamos futebol e conseguimos, através da arte, vencer.”
A identificação está justamente na mudança de rota. O sonho inicial não aconteceu da maneira esperada, mas isso não significou o fim da trajetória.
Kaique encontrou outro caminho e transformou uma habilidade que começou quase por acaso em profissão, identidade e linguagem.
No fim, talvez seja essa a parte mais interessante da história de Kaique Alves. A câmera emprestada não parecia, naquele momento, o começo de uma carreira internacional. Era apenas uma ferramenta para fazer vídeos melhores e ganhar algum dinheiro com artistas da comunidade.
O futebol ficou para trás. O audiovisual, não.
E foi nesse segundo caminho que Kaique Alves encontrou uma maneira de criar, comunicar e contar histórias sem deixar para trás o lugar de onde veio.




