Grupo Oficcina Multimédia abre celebrações de seus 50 anos com montagem de O beijo no asfalto

O Beijo no Asfalto
Foto: Netun Lima

Sessenta e cinco anos depois de sua primeira apresentação, O beijo no asfalto, de Nelson Rodrigues, retorna aos palcos em nova montagem do Grupo Oficcina Multimédia (GOM). A estreia nacional será em 28 de agosto de 2026, no Teatro I do Centro Cultural Banco do Brasil Belo Horizonte e fica em cartaz até 5 de outubro. Após a temporada na capital mineira, estão previstas temporadas no CCBB Rio de Janeiro e no CCBB Brasília.

Apresentada e patrocinada pelo Banco do Brasil, a 25ª produção do GOM abre o ciclo de celebração dos 50 anos da companhia mineira ao mesmo tempo em que completa a trilogia rodriguiana iniciada com Boca de Ouro, em 2018, e seguida por Vestido de Noiva, em 2023, trabalho que rendeu a Ione de Medeiros o Prêmio APCA de Melhor Direção.

Escrita em 1960 e apresentada pela primeira vez em julho de 1961 pela Companhia dos Sete, com direção de Fernando Torres e Fernanda Montenegro no elenco, a peça acompanha Arandir, homem que presencia um atropelamento e atende ao último pedido de um desconhecido agonizante: um beijo.

O gesto de compaixão é imediatamente transformado em escândalo. A partir daí, imprensa, polícia, vizinhança e família passam a produzir e confirmar uma narrativa de desvio sexual, crime e traição. A palavra de Arandir perde espaço para uma versão pública construída por interesses, preconceitos, chantagens e falsos testemunhos.

Embora a obra seja frequentemente associada ao debate contemporâneo sobre fake news, pós-verdade e cancelamento, a montagem do Grupo Oficcina Multimédia desloca o foco para uma questão anterior: a capacidade de uma sociedade transformar um ato de humanidade em prova contra quem o praticou. 

A tecnologia hoje amplia a circulação da acusação, mas o mecanismo social de condenação pública continua o mesmo”, afirma Ione de Medeiros, diretora do Grupo Oficcina Multimédia.

A permanência do texto de Nelson Rodrigues, portanto, não depende de equivalentes digitais para o antigo linchamento moral. A peça expõe práticas coletivas anteriores às redes sociais: a defesa da honra, o controle dos corpos, a suspeita diante do desvio e a conversão da família, da vizinhança, da imprensa e da polícia em instâncias de julgamento. “Depois que se lança uma notícia falsa, até se voltar à verdade original, uma vida já pode ter sido crucificada,” reflete Ione.

Para a diretora, porém, a força da obra não está apenas na crítica à desinformação. A montagem procura recuperar o sentido ético do gesto de Arandir, anterior ao escândalo e à condenação pública. “É um gesto de compaixão tornado prova criminal por uma sociedade que não suporta atos desinteressados quando eles ferem seus códigos de moralidade, normalidade e aparência”.

Ao final da peça, Arandir afirma que aquele beijo foi a melhor coisa que fez na vida. A declaração preserva uma possibilidade mínima de resistência: a de agir com humanidade sem pedir licença ao pensamento dominante.

Uma sociedade que fabrica culpados

Na leitura concebida pelo GOM, a mentira ganha força porque diferentes estruturas sociais passam a validá-la. O jornalista Amado Ribeiro deixa de apurar o acontecimento e organiza os fatos de acordo com a história que pretende publicar. A polícia conduz o interrogatório para confirmar a acusação. A família incorpora a versão pública e abandona a confiança construída na intimidade.

Na peça, o repórter deixa de narrar o acontecimento e passa a fabricá-lo. O delegado conduz a investigação para encaixar o fato em uma culpa previamente estabelecida. A família, por sua vez, participa da condenação ao preferir a versão pública à intimidade que dizia conhecer”, reflete Ione de Medeiros.

O escândalo não esclarece o que ocorreu no asfalto. Ele revela quem precisava que aquele fato fosse transformado em escândalo. A narrativa do desvio sexual, da honra ferida e da família ameaçada encontra adesão porque confirma preconceitos já existentes.

A acusação circula pela casa, pela vizinhança, pelo escritório, pela delegacia e pelo jornal até adquirir a força de uma sentença. Nos anos 1960, esse processo se consolidava pela manchete, pela fofoca e pelo falso testemunho. Hoje, viralização e cancelamento ampliam a escala e a velocidade de mecanismos mais antigos de julgamento público.

Na visão do Grupo Oficcina Multimédia, Arandir começa a morrer antes do desfecho físico. Sua morte social ocorre quando terceiros conquistam mais autoridade sobre sua identidade do que ele próprio; quando a manchete substitui sua palavra; quando a investigação procura provas para confirmar uma culpa já decidida; e quando Selminha, sua esposa, acredita mais na narrativa pública do que na relação íntima que conhecia.

A montagem também investiga a repressão do desejo e os códigos que organizam a masculinidade. Aprígio, sogro de Arandir, é apresentado como um homem socialmente ajustado, engravatado e reconhecível dentro dos padrões de respeitabilidade. A escolha evita a caricatura do desejo reprimido e desloca a discussão para o conflito de quem dirige contra o outro uma violência nascida da incapacidade de admitir os próprios sentimentos.

O cenário como dramaturgia

A concepção cênica de O beijo no asfalto retoma uma prática central na trajetória de Ione de Medeiros e do Grupo Oficcina Multimédia. Nos espetáculos da companhia, o cenário não se limita a ambientar a ação. Espaço, objetos, imagens, sons, corpos e movimentos participam da construção dramatúrgica.

Desde seus primeiros trabalhos, o GOM desenvolve cenários móveis e transformáveis, objetos que abandonam funções fixas, estruturas manipuladas pelos atores e imagens que interferem diretamente na presença cênica. Essa mobilidade não foi criada especificamente para O beijo no asfalto. É parte da linguagem consolidada pelo grupo ao longo de quase cinco décadas.

Nesta montagem, a cenografia organiza o palco a partir de dois territórios. De um lado, aparecem os espaços externos da cidade — escritório, delegacia e áreas de circulação — marcados por estruturas frias, simétricas e verticais. Portas móveis evocam edifícios, repartições e ambientes submetidos à urgência, à hierarquia e à exigência de resultados.

Do outro, está a sala familiar, composta por sofás, poltrona, mesa e tapete. O ambiente reúne os sinais de uma casa que deveria oferecer acolhimento, intimidade e confiança. No entanto, a sala muda de posição, aproxima-se da plateia, recua e se desfaz à medida que a família deixa de funcionar como espaço de proteção. 

Essa mobilidade é um modo de produzir pensamento teatral. O cenário muda porque as relações mudam; desloca-se porque o sentido não permanece estável; expõe sua construção porque a realidade representada também é feita de versões, enquadramentos e convenções,” diz Ione de Medeiros.

A cidade invade a casa antes que os móveis sejam retirados. Isso acontece quando os personagens passam a olhar Arandir por meio da versão construída na rua. Quando o espaço doméstico desaparece, a cenografia apenas conclui uma destruição já consumada nas relações.

Os próprios atores manipulam portas, mesas, cadeiras e os elementos da sala. Eles não apenas ocupam o cenário: constroem, desmontam e reorganizam os espaços onde a ação acontece. A operação encontra correspondência na estrutura coletiva da tragédia, produzida pela participação de diferentes personagens na consolidação da mentira.

Um buraco da fechadura agigantado

Em alguns momentos, a sala avança até o proscênio e reduz a distância entre a vida familiar e a plateia. Ione define essa relação como um “buraco da fechadura agigantado” onde não há participação direta do público, mas há cumplicidade voyeurística na narrativa. O espectador não está diante de uma família distante, preservada pela moldura do palco. Ele é aproximado da sala, como quem escuta uma conversa íntima demais no ambiente ao lado”.

O público não interfere diretamente na ação, mas ocupa a posição de quem observa uma intimidade que deveria permanecer protegida. A escolha amplia uma tensão central da obra de Nelson Rodrigues: a curiosidade coletiva diante do desvio, do segredo e da queda alheia.

Vídeo como lugar de escuta

O espetáculo utiliza vídeos produzidos especialmente para a montagem. O recurso assume uma função diferente daquela explorada pelo grupo em Vestido de Noiva, em que as projeções participavam da construção dos planos de realidade, memória e alucinação.

Em O beijo no asfalto, o vídeo cria um espaço de confidência. Em breves depoimentos, os personagens dirigem-se à plateia e revelam sentimentos que não conseguem compartilhar uns com os outros.

Como a família não escuta, os personagens falam à plateia, como pacientes num divã em uma conversa terapêutica. A solução reforça a contradição central da peça: todos falam sobre Arandir, poucos falam com ele; todos interpretam o gesto, quase ninguém suporta escutar o seu sentido”, afirma Henrique Torres Mourão, ator e produtor audiovisual do GOM.

Projetados em portas e em diferentes pontos do cenário, os rostos ampliados tornam a intimidade em matéria pública. A imagem muda a escala do indivíduo do mesmo modo que a narrativa jornalística amplia e descontextualiza o gesto de Arandir.

Melodrama e fotonovela

A montagem também se aproxima do universo visual e narrativo da fotonovela. O beijo no asfalto reúne melodrama, adultério, suspeita, morte, segredo familiar, desejo interditado e revelações sucessivas.

A estrutura em quadros evidencia a fabricação seriada do escândalo. Cada cena acrescenta uma versão; cada testemunho aumenta sua aparência de verdade; cada personagem participa da montagem pública da mentira.

A progressão cromática dos figurinos acompanha esse percurso. As roupas começam claras, incorporam cores associadas à juventude e à vida familiar e tornam-se mais escuras à medida que avançam a suspeita, o nojo, a vergonha, a acusação e a morte social.

Primeiro, há juventude, desejo, casamento, casa, planos. Depois, há suspeita, nojo, vergonha, acusação, morte social. O escuro final não é apenas a morte do personagem principal. É o enterro de qualquer possibilidade de confiança entre aquelas pessoas”, explica Jonnatha Horta Fortes, ator e produtor do Grupo Oficcina Multimédia.

A leitura do GOM trata O beijo no asfalto como uma tragédia urbana sobre a morte social de um homem que realizou um gesto de misericórdia. “Na verdade, Arandir morre antes do tiro. Ele morre quando a manchete ocupa o lugar da sua palavra, quando a esposa prefere o rumor à relação íntima que ela conhecia, quando a polícia investiga não para absolver, mas para confirmar a culpa. Arandir morre quando a cidade transforma compaixão em perversão e, portanto, a morte física apenas encerra um processo já consumado”, conclui Ione de Medeiros.

Trilogia Nelson Rodrigues sob a perspectiva do GOM

O beijo no asfalto completa a trilogia atualmente dedicada pelo Grupo Oficcina Multimédia à dramaturgia de Nelson Rodrigues.

Em Boca de Ouro, de 2018, a companhia se aproximou de um teatro mais orientado pela força do texto, embora já utilizasse objetos transformáveis e soluções espaciais próprias de sua linguagem. 

Em Vestido de Noiva, de 2023, o cenário móvel, o vídeo e a multiplicidade funcional dos objetos contribuíram para construir os planos de realidade, memória e alucinação da protagonista.

Na nova montagem, o GOM reúne elementos dessas experiências. Mantém a clareza dos espaços indicados pela dramaturgia rodriguiana, mas faz com que esses lugares sejam montados, deslocados e desmontados diante do espectador.

A companhia lê Nelson Rodrigues a partir de sua própria gramática: cenário como pensamento, vídeo como escuta, figurino como progressão dramática, atuação como construção visível do espaço e tecnologia sem submissão da cena ao aparato técnico.

Ao escolher O beijo no asfalto para abrir as celebrações de seus 50 anos, o Grupo Oficcina Multimédia reafirma a pesquisa continuada que marca sua trajetória e coloca sua linguagem diante de uma pergunta ética: ainda somos capazes de reconhecer a humanidade quando ela aparece fora da norma?

A resposta da peça não é otimista. Arandir é cercado pela imprensa, pela polícia, pela família, pelo preconceito e pelo medo. “Ainda assim, o beijo preserva uma possibilidade mínima de resistência: a de realizar um gesto de compaixão sem pedir licença ao pensamento dominante“, conclui Ione de Medeiros.